O Ashtanga Yoga nos "Yoga-Sutras" de Patañjali

Por volta do século III a.C. surgia o primeiro tratado filosófico dedicado exclusivamente ao Yoga: o Yoga-Sutra. Seus 195 sutras, ou aforismos, foram compilados por Patañjali - sábio yogi indiano que, segundo algumas passagens, era também médico e gramático renomado. Há sobre ele uma espécie de invocação que diz: 

"Inclino-me perante o mais nobre dos sábios, Patañjali, que trouxe a serenidade da mente, com sua obra sobre o yoga, clareza no falar, com sua obra gramatical, e pureza do corpo, com sua obra médica."

Os aforismos do Yoga-Sutra estão distribuídos em quatro capítulos intitulados pela ordem: Samadhi-Pada (51 aforismos), Sadhana-Pada (55 aforismos), Vibhuti-Pada (55 aforismos) e Kaivalya-Pada (34 aforismos). 

Algumas edições têm 196 sutras - fato este que não altera o sentido da obra de Patañjali.

Desde seu surgimento, o Yoga-Sutra se constituiu como um texto dedicado especialmente ao Yoga, servindo como base para os estudos mais recentes e como um precioso manual de orientações para todos aqueles que praticam e pesquisam esta tradição de maneira séria e autêntica.

As causas do sofrimento

Nesse tratado, Patañjali escreve que:

"Tudo é sofrimento para o sábio."

Embora, como bem constatou Mircea Eliade:

"Mas Patañjali não é nem o primeiro nem o último a constatar esse sofrimento universal. Bem antes dele, o Buda proclamara: ‘Tudo é dor, tudo é efêmero’. Está aí o motivo principal de toda a especulação indiana pós-upanixádica. As técnicas soteriológicas, assim como as doutrinas metafísicas, acham sua razão de ser nesse sofrimento universal, pois não possuem valor senão na medida em que libertam o homem da ‘dor’. A experiência humana, de qualquer natureza que seja, engendra sofrimento."

Em termos gerais, a base que fundamenta a Filosofia Yoga descrita por Patañjali é a de que todo sofrimento humano advém da falta de conhecimento que temos de nossa natureza primordial. Isso equivale a dizer que somos "ignorantes" quanto à nossa verdadeira essência. Essa "ignorância" nada tem a ver com a falta de conhecimento intelectual. Não era a esse conceito que se referia Patañjali.

Esse tipo especial de ignorância, ao qual verdadeiramente se refere Patañjali, é chamado de Avidya e é considerada a causa matriz de todo o sofrimento humano, pois: não nos lembramos quem somos de fato e, portanto, sofremos.

Esse esquecimento cósmico mascara a verdadeira natureza humana, que é ser feliz. 

De acordo com Patañjali, a felicidade é o estado natural e saudável da mente pura. E essa pura felicidade explica-se, segundo Georg Feurstein, pelo fato que:

"Essa felicidade não é a simples ausência de dor ou desconforto, nem é um estado que depende do cérebro. Está além do prazer e da dor, que são estados do sistema nervoso." 

Patañjali denomina as causas da miséria e do sofrimento humanos de Klesas - palavra sânscrita que significa dor, aflição ou miséria. O primeiro dos cinco klesas é Avidya (ignorância), seguido por Asmita (egoísmo), Raga (apego), Dvesa (aversão) e Abhinivesa (algumas vezes traduzido como medo da morte, por vezes é melhor compreendido como o amor extremado à vida, ou à vontade compulsiva de viver).

Entre si, os klesas desenvolvem um processo seqüêncial de causas e efeitos, onde uma ação leva a uma reação e assim sucessivamente. Não são compartimentos ou estados estanques ou separados. Para Mircea Eliade, Patañjali descobriu nos klesas

"(...) cinco ‘matrizes’ produtoras de estados psicomentais(...) Não se trata de cinco funções psíquicas separadas pois o organismo psíquico constitui um todo, mas seus comportamentos são múltiplos. Todas as classes de vritti são ‘dolorosas’ (klesa); por isso a experiência humana em sua totalidade é dolorosa". 

O árduo trabalho do yogi é trabalhar e manipular as várias formas mentais e comportamentais assumidas pelos klesas (que constituem um fluxo psicomental ininterrupto) até conseguir sua total anulação. Essas incontáveis formas aprisionam o corpo e a mente dos seres humanos, transformando-os em escravos ao invés de senhores de sua própria vida. Eliade ressalta ainda que:

"Só o Yoga consegue suprimir os vritti e abolir o sofrimento." 

Como já foi colocado, essa não é uma preocupação alimentada somente por Patañjali, pois no sexto capítulo do Bhagavad Gita, Krishna explica a Arjuna o significado do Yoga como:

"Uma libertação do contato com a dor e a tristeza."

Nesse sentido, o Yoga é um processo revolucionário de libertação de todos os condicionamentos humanos, admitindo que a realização da vida como uma programação universal de dor e sofrimento é condição sine qua non para que esse processo de efetiva libertação se concretize. Não há pessimismo aliado a essa concepção, mas há, sim, a constatação de que esse sofrimento universal tem intrinsecamente um valor positivo, estimulante e corajosamente revelador das potencialidades humanas adormecidas.

Em palavras bastante poéticas, mas carregadas de verdade e abalizadas por Patañjali, o Yoga é o caminho para a liberdade suprema.

Mas como alcançar a liberdade suprema?

O sutra número dois oferece a conceituação: "Yoga é a parada dos turbilhões da mente". Em sânscrito: "Yogas chitta vritti nirodhah"

Em outras palavras: Yoga é a parada voluntária dos pensamentos. Isso se traduz, entre outras coisas aparentemente impossíveis de se alcançar, no controle da mente a ponto de transcendê-la num estado chamado Samadhi

Alcançar Samadhi, para o qual não há uma descrição possível pelo uso das palavras, é a meta da proposta do sistema delineado por Patañjali, bem como o é para todos os demais sistemas de Yoga. 

Porém, para alcançar tal intento, Patãnjali esquematizou um grupo de técnicas divididas em oito (=asht) partes (=anga), chamado Ashtanga Yoga

Ashtanga Yoga

Cada uma dessas oito partes estão intimamente interrelacionadas entre si, bem como com a totalidade do processo. Não há como separá-las em compartimentos estanques, pois a parte anterior é sempre um pré-requisito para a posterior, que deve ser alcançada apenas depois da correta prática de sua antecessora. Portanto, não há como pular etapas, pois é a partir desse relacionamento contínuo que se vai consolidando a estrutura sólida necessária à prática do Yoga.

Os oito passos que compõem o sistema de Patañjali, pela ordem, são: 

1. Yama - Refreamentos, ou antídotos para os condicionamentos individuais e sociais. São eles: Ahimsa (não-violência), Satya (verdade), Asteya (não roubar), Brahmacharya (controle sobre os impulsos sexuais, não os transformando numa forma de compulsão) e Aparigraha (renúncia à possessividade).

2. Niyama - Refinamento dos processos internos/interiores na forma de uma autopurificação. São eles: Saucha (pureza do corpo e da mente), Santosha (contentamento; também diante das adversidades), Tapas (autodisciplina e dedicação), Svadhyaya (estudo e aprofundamento dos textos sagrados do Yoga) e Ishvara-Pranidhana (práticas de conteúdo devocional).

3. Asana - São as posturas psicofísicas que conferem firmeza e estabilidade ao corpo e à mente. Segundo Patañjali, o asana deve ser confortável e estável para propiciar maior permanência durante a prática da meditação. Nesse sentido, o asana prepara o corpo e tranqüiliza a mente para os processos meditativos. Não são classificados como exercícios físicos, no sentido como estes são concebidos no Ocidente.

4. Pranayama - Controle e expansão da energia vital, conhecida como prana. Daí o nome pranayama = prana (energia vital) e ayama (controle, expansão). Para Patañjali, apenas o controle respiratório, por si só, não basta para se conseguir o sucesso nessa fase. Deve haver o controle das fases de inspiração (=puraka), expiração (= rechaka) e, especialmente, da retenção (=kumbhaka). Sem está ultima fase, não há Samadhi.

Essas quatro primeiras fases podem ser consideradas como práticas externas ou preparatórias, pois sem elas não há como se obter êxito nas fases seguintes. As quatro últimas fases trabalham com o mundo interno do praticante e gradualmente o conduzem à meditação. São elas:

5. Pratyahara - Libertação da mente do jugo dos sentidos e das formas externas, traduzindo-se numa forma de controle destes. É algo parecido com escutar sem ouvir, olhar sem ver, sentir sem tocar. Os sentidos não são mais a forma principal de avaliação e percepção do mundo, especialmente do chamado mundo interior. Pratyahara induz a um estado de relaxamento profundo e consciente, preparatório para a meditação.

6. Dharana - Atenção extrema, ou concentração, que pode ter como apoio um objeto para observação. Por exemplo, um símbolo, uma deidade ou um som específico. Em Dharana, a atenção deve atingir sua mais elevada graduação.

7. Dhyana - Concentração extrema ou meditação. Quando, em Dharana, a atenção chega a seu ápice, transforma-se em concentração extrema, ou Dhyana - que é uma forma de meditação. Nesse momento, o objeto de observação e o observador se fundem em pura consciência, tornando-se um só.

8. Samadhi - Iluminação ou a manutenção desse estado de pura consciência por determinado período e com suspensão da respiração (kumbhaka). Nesse estado, vai-se além do corpo, da mente e da própria consciência. Segundo os grandes mestres de Yoga de todos os tempos, não há como descrevê-lo. Deve-se experimentá-lo.

Ao conjunto de DharanaDhyana e Samadhi, Patañjali denominou Samyama.